28 de mai. de 2020

Bono Vox, 60 anos com playlist especial

by on quinta-feira, maio 28, 2020

Bono Vox, o vocalista do U2, completou 60 anos neste domingo (10). Para celebrar a data, o cantor fez uma playlist contendo 60 canções que salvaram sua vida. A lista conta com clássicos, que vão de David Bowie a Nirvana, e também hits recentes de Jay-Z, Lady Gaga e Billie Eilish. Confira a lista completa abaixo e ouça acima.


  1. Luciano Pavarotti, Bono & Zucchero - Miserere
  2. Sex Pistols - Anarchy In the UK
  3. Kanye West - Black Skinhead
  4. Billie Eilish - everything i wanted
  5. David Bowie - Life on Mars?
  6. The Beatles - I Want to Hold your Hand
  7. Ramones - Swallow My Pride
  8. The Clash - Safe European Home
  9. Public Enemy - Fight The Power
  10. Patti Smith - People Have the Power
  11. John Lennon - Mother
  12. The Rolling Stones - Ruby Tuesday
  13. Elton John - Daniel
  14. Andrea Bocelli- Con Te Partiro
  15. Elvis Presley - Heartbreak Hotel
  16. Johnny Cash - Hurt
  17. This Mortal Coil - Song to the Siren
  18. Kraftwerk - Neon Lights
  19. The Fugees - Killing Me Softly With His Song
  20. Prince - When Doves Cry
  21. Daft Punk feat Pharrell Williams & Nile Rodgers - Get Lucky
  22. Madonna - Ray of Light
  23. JAY-Z feat Alicia Keys - Empire State of Mind
  24. Talking Heads - Love Goes to Building on Fire
  25. Lou Reed - Satellite of Love
  26. The Verve - Bitter Sweet Symphony
  27. Joy Division - Love Will Tear Us Apart
  28. New Order - True Faith
  29. R.E.M. - Nightswimming
  30. Adele - Chasing Pavements
  31. Arcade Fire - Wake Up
  32. Pixies - Monkey Gone to Heaven
  33. Oasis - Live Forever
  34. Iggy Pop - Lust for Life
  35. Gavin Friday - Angel
  36. Massive Attack - Safe From Harm
  37. Kendrick Lamar feat U2 - XXX
  38. Bob Marley & The Walers - Redemption Song
  39. Echo and the Bunnymen - Rescue
  40. Nirvana - Smells Like Teen Spirit
  41. Pearl Jam - Jeremy
  42. Bob Dylan - Most of the Time
  43. Beyoncé feat Kendrick Lamar - Freedom
  44. Depeche Mode - Walking In My Shoes
  45. Nick Cave & The Bad Seeds - Into My Arms
  46. Simon & Garfunkel - The Sounds of Silence
  47. Coldplay - Clocks
  48. INXS - Never Tear Us Apart
  49. New Radicals - You Get What You Give
  50. Angélique Kidjo - Agolo
  51. Lady Gaga - Born This Way
  52. Frank Sinatra & Bono - Under My Skin
  53. David Bowie - Heroes
  54. Simple Minds - New Gold Dream (81/82/83/84)
  55. Sinéad O'Connor - You Made Me The Thief Of Your Heart
  56. Van Morrison - A Sense of Wonder
  57. Bruce Springsteen - There Goes My Miracle
  58. Daniel Lanois - The Maker
  59. Peter Frampton - Show Me The Way
  60. Bee Gees - Immortality - Demo Version

No comunicado que acompanhou o lançamento da playlist, Bono revela que vai escrever uma “carta de fã” para acompanhar cada canção como forma de explicar sua fascinação. As seis primeiras, endereçadas a David Bowie, Billie Eilish, Daft Punk, Luciano Pavarotti e Kraftwerk já estão disponíveis no site oficial do U2.

O lançamento mais recente do U2 é “Ahisma”, primeira canção inédita da banda desde Songs of Experience, disco de 2017. O grupo irlandês encerrou em dezembro de 2019 a turnê Joshua Tree, que celebra o clássico disco lançado em 1987 pelo quarteto.

Fonte: Omelete

Ídolos mortos valem mais?

by on quinta-feira, maio 28, 2020

Hoje, eu gostaria de trazer uma reflexão para nós, relacionada á forma como lidamos com os artistas, atribuindo-os um valor baseado na duração de suas carreiras, por exemplo: Superestimar um artista por ter uma carreira super curta ou ter morrido prematuramente, e também do outro lado da moeda, diminuir o valor de um artista pelo fato dele não manter uma sequência de trabalhos geniais/históricos e ter uma carreira muito longa, com 40 ou 50 anos de duração. Acredito que o ponto principal é: Afinal, ídolos mortos valem mais?

É bastante curioso esses cenários que muitas pessoas costumam construir. Vou trazer alguns pontos para que possamos pensar e elaborar uma reflexão sobre alguns julgamentos que alguns artistas recebem.

  • Será que se Kurt Cobain não tivesse morrido em 1994 e estivesse ai na ativa até os dias de hoje, Nirvana teria esse tamanho e status que tem hoje? Se a morte de seu líder não tivesse abreviado as coisas, talvez uma outra banda do movimento como o Pearl Jam seria a banda mais icônica de sua geração, vai saber.


  • O mesmo com Jim Morrison, e se o The Doors seguisse sua carreira sem nenhuma perda na banda, será que eles ainda manteriam a sequência maravilhosa de discos e seria considerada uma banda acima de muitas por ter uma discografia praticamente perfeita?


  • O maior nome quando pensamos em guitarra, Jimi Hendrix. É claro que toda sua revolução não seria diminuída por estar aqui até os dias de hoje. Mas será que uma carreira de 50 anos, com inevitáveis trabalhos ruins, parcerias de fracasso e ‘’mais do mesmo’’, não o faria receber um julgamento como um artista questionável e não intocável como é nos dias de hoje?


  • Agora pensando um pouquinho do outro lado da moeda. E se os Rolling Stones tivessem acabado logo após o lançamento de ”Exile On Main Street” em 1972, considerado por muitos como o melhor disco da banda. Será que eles não seriam imediatamente colocados como a maior banda do mundo ao lado dos Beatles, e não uma banda que recebe algumas críticas por estarem em atividade até hoje, se repetindo e com a ausência de trabalhos geniais como os primeiros?


  • Eric Clapton, indiscutivelmente um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Será que se ele tivesse sucesso na sua tentativa de suicídio como pensou e tentou após o lançamento de Layla em 1970, resumindo sua carreira em pouco mais de 5 anos, com discos históricos, ele automaticamente não seria colocado ao lado do Jimi ou quem sabe, maior? Um universo de possibilidades e alternativas.


  • E para fechar esses exemplos, Axl Rose. Imagine só se ele tivesse morrido em 1993 durante o auge do Guns N’ Roses ao vivo, com uma discografia praticamente perfeita, no seu auge vocal e performático, jovem e com muita energia, com a banda varrendo todo o cenário do Rock. Se isso tivesse ocorrido será que Axl seria colocado no patamar dos grandes ícones da história do rock ou maiores vocalistas do gênero? Nos dias de hoje muito bem sabemos que o Guns é detonado por uma parcela das pessoas que argumentam sobre a voz dele deixa a desejar em muitos momentos (oque já era esperado) e as atitudes dele nos bastidores arruinaram o prosseguimento da banda. E acho que podemos concordar que ele tem sua parcela de culpa nisso tudo, mas é interessante pensar nesse outro possível caminho da carreira.


Gostaria de destacar, que esse texto não tem o objetivo de diminuir a importância ou questionar o valor artístico desses grandes nomes da história do Rock. Todos são personagens que eu amo e admiro. Mas achei interessante pensar um momento sobre como as coisas seriam e como as pessoas tem esse hábito de utilizar elementos de tempo e longevidade para valorar os artistas. E o oque eu falei aqui não é uma verdade absoluta, é apenas uma forma de imaginar caminhos que não aconteceram. Estou aberto á novas teorias ou pontos sobre a forma que esses artistas são reconhecidos.

Bom uma coisa é fato, uma carreira curta, com poucos discos lançados, uma morte trágica ou fatalidade, automaticamente coloca o artista numa posição praticamente intocável e muita das vezes, ter o privilégio de te-los por muitos e muitos anos, pode fazer com que ele se torne algo não tão especial e enigmático. Oque na minha opinião é um grande erro. Espero que possamos valorizar e desfrutar dos nossos artistas favoritos todos os dias, principalmente reconhece-los em vida!

Vida longa á música!

Por Neto Rocha
Fonte: Entre Acordes

25 de mai. de 2020

Linhas do Rock #009: 1980

by on segunda-feira, maio 25, 2020

Em tempos de quarentena, isolamento social, excesso de redes sociais e muitas mortes, uma saudade bateu de forma arrebatadora: o ano de 1980. Todos sabem que a década de 1970 acabou em 1º de janeiro de 1981, mas o ano de 1980 é crucial para se entender toda essa década de 1980 e como sua explosão cultural, musical, política e filosófica está centrada no Rock.

Alguns fatos importantes de 1980:

  • 27 de janeiro: Frank Sinatra realiza um show para mais de 100 mil pessoas no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro;
  • 10 de fevereiro: fundação do partido político PT (Partido dos Trabalhadores);
  • 19 de fevereiro: Bon Scott, vocalista da banda AC/DC, morre aos 33 anos em Londres;
  • 15 de abril: morre em Paris, aos 74 anos, o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre;
  • 18 de maio: morre aos 23 anos, vítima de uma overdose de medicamentos, Ian Curtis, vocalista e símbolo da banda Joy Division;
  • 23 de maio: lançamento do filme O Iluminado de Stanley Kubrick;
  • 9 de julho: morre aos 66 anos o poeta, escritor e compositor Vinicius de Moraes;
  • 25 de setembro: morre o baterista do Led Zeppelin, John Bonham, aos 32 anos;
  • 4 de novembro: Ronald Reagan derrota Jimmy Carter e se torna o 40º presidente dos Estados Unidos;
  • 8 de dezembro: John Lennon é assassinado aos 39 anos por um fã;
  • 19 de dezembro: lançamento do filme Touro Indomável de Martin Scorsese.

Mas, claro, aqui o Rock tem prioridade! Abaixo, 10 álbuns marcantes que todos devem conhecer e ter em casa seja em vinil, cassete, CD ou até mesmo MP3. Com certeza haverá um ou outro que você leitor considerará muito importante e que não está na lista, mas mesmo assim, estes são reconhecidos como alguns dos melhores de 1980 em vários aspectos!

São eles:

BACK IN BLACK
AC/DC


Depois da trágica morte de Bon Scott, o AC/DC tinha tudo para não continuar sua brilhante carreira da década de 1970. Mas com a entrada do novo vocalista Brian Johnson, e mesmo em luto profundo, o álbum Back In Black pode ser considerado a maior volta da história do Rock. “Hells Bells”, “Back In Black”, “You Shook Me All Night Long” e “Rock And Roll Ain’t Noise Pollution” são alguns exemplos da força criativa e pulsante de Angus Young com sua guitarra e do AC/DC como um todo.

SEVENTEEN SECONDS
THE CURE


O segundo álbum de estúdio do The Cure é, na prática, o início da trilogia gótica da banda, junto dos álbuns posteriores Faith (1981) e Pornography (1982), e também Robert Smith e toda a banda se destacando com suas qualidades que se tornaram históricas. “Play For Today” e “A Forest” se destacam. 

CROCODILES
ECHO AND THE BUNNYMEN


Focados num elegante Post-Punk, a banda Echo And The Bunnymen iniciou sua discografia com o belíssimo álbum Crocodiles. Ian McCulloch e banda conseguiram imprimir uma dor musical incomum e clássicos surgiram como “Rescue” e “Pictures On My Wall”.

ACE OF SPADES
MOTÖRHEAD


No início o Motörhead era um trio, ou melhor, um power trio. Lemmy (vocal e baixo), Eddie Clark (guitarra) e Phil Taylor (bateria) colocaram uma potência sônica incrível e realizaram dois álbuns fantásticos: Overkill (1979) e Bomber (1979). Mas com Ace Of Spades a obra-prima estava pronta; e faixa-título se tornou um hino!

BRITISH STEEL
JUDAS PRIEST


O Judas Priest possui um dos maiores feitos da história do Rock: manter o Heavy Metal de pé e em ótima qualidade na era punk. Mas foi no ano de 1980 que eles lançaram sua grande obra-prima: British Steel. Com os riffs das guitarras de K. K. Downing e Glenn Tipton, além do impressionante vocal de Rob Halford, clássicos instantâneos como “Metal Gods”, “Breaking The Law” e “Living After Midnight” simbolizam o que significa o termo Metal em sua primazia.

IRON MAIDEN
IRON MAIDEN


O primeiro álbum do Iron Maiden pode até destoar um pouco da sua longa discografia por alguns elementos básicos, por exemplo, Punk Rock, mas em nenhum momento pode ser considerado “menor”. Antes da entrada triunfal de Bruce Dickinson em 1982, Paul Di’Anno apresenta um vocal punk, energético e extremamente competente num Iron Maiden totalmente codificado no New Wave Of British Heavy Metal (ao lado de bandas como Saxon). E seu debut apresenta ótimos momentos como “Prowler”, “Phantom Of The Opera”, “Iron Maide”, o hit “Running Free” e “Remember Tomorrow” (com Steve Harris e Paul Di’Anno dando um show à parte).

CLOSER
JOY DIVISION


O Rock possui momentos que são realmente marcantes e a virada 1970/1980 é um desses! E uma banda que simboliza demais essa virada de década é Joy Divison. Ian Curtis (vocal), Bernard Summer (guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) criaram um som soturno, claustrofóbico e um estilo dentro do Post-Punk que desmaterializa qualquer sentimento feliz diante das amarguras da vida. E as composições de Ian Curtis beiram o caos de forma sublime!

DOUBLE FANTASY
JOHN LENNON & YOKO ONO


O último álbum solo de John Lennon não se trata apenas de um dos maiores discos da história, mas também seu grand finale com requintes de profunda tristeza por tudo que aconteceu: Lennon seria assassinado menos de um mês depois do lançamento de Double Fantasy. Mas falando do álbum em si, sua construção se deu depois de um hiato familiar com Yoko Ono e esta parceria aconteceu também com ela em canções surpreendentes como “Kiss Kiss Kiss”, “(Just Like) Starting Over”, “Woman”, “Watching The Wheels” e “Beautiful Boy (Darling Boy)”.

HEAVEN AND HELL
BLACK SABBATH


A segunda metade da década de 1970 apresenta um Black Sabbath ainda genial, até melhor tecnicamente, mas com um peso amargo crescendo: as diferenças entre os integrantes. No final da década, Ozzy Osbourne sai e entra nada menos que Dio. Trazendo um vigor diferente e uma técnica vocal ainda melhor, o álbum Heaven And Hell é um primor metálico e técnico pouco visto. São oito canções que exploram o máximo de Dio (vocal), Toni Iommy (guitarra), Gezzer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) e “Children Of The Sea” e a faixa-título são exemplos de como uma banda incrível e clássica pode melhorar ainda mais. 

BLIZZARD OF OZZ
OZZY OSBOURNE


Ozzy Osbourne se sentia oprimido e limitado no Black Sabbath com as “mãos de ferro” de Tony Iommy. Logo, sua saída era iminente. E uma carreira solo surgiria de forma magistral pela década de 1980. E nada melhor do que começar esta carreira de forma brilhante. Blizzard Of Ozz é sua obra-prima negra, malvada, extremamente bela e com momentos brilhantes. “Crazy Train”, “Suicide Solution” e “Mr. Crowley” dizem muito sobre Ozzy e, também, por sua incrível capacidade de recrutar maravilhosos músicos: leia-se Randy Rhoads

Por Eduardo Lima

18 de mai. de 2020

Linhas do Rock #008: THE BEATLES - DISCOGRAFIA COMENTADA

by on segunda-feira, maio 18, 2020

Falar ou escrever sobre os Beatles nunca é anacrônico, jamais desestimulante e de modo algum será demais. E os quatro de Liverpool são a banda de Rock mais influente de todo o século XX, logo, influência clara em praticamente tudo que se ouve até hoje. John Lennon (vocal e guitarra), Paul McCartney (vocal e baixo), George Harrison (guitarra) e Ringo Starr (bateria) não apenas mudaram as suas vidas e a banda em si, como também toda a música e, claro, a cultura do século XX para sempre. Em 10 anos de carreira, lançaram 13 álbuns, com vários singles e “álbuns coletâneas” em outros países (leia-se EUA!). De 1964 até 1970 realizaram tudo o que a ciência fez no século XIX só que na música mais popular do século XX: o Rock!

Abaixo, a discografia comentada dos Beatles:

Please Please Me (1963)


Gravado quase por completo em aproximadamente 1 dia, o 1º álbum dos Beatles é um acontecimento único da história do Rock. Ao estilo Merseybeat, o Rock britânico da virada 1950/1960, canções como “I Saw Her Standing There”, “Misery” ou “Ask Me Why” demonstraram uma banda incrível, tecnicamente diferente de todas as britânicas de sua época e, claro, algo mais do que simplesmente músicas românticas adolescentes. E “Please Please Me”, “Love Me Do”, “P.S. I Love You” e “Twist And Shout” (aqui a voz de John Lennon é desgastantemente antológica) são músicas clássicas não apenas dos Beatles, mas da música.

With The Beatles (1963)


Com With The Beatles (1963), os Beatles não apenas evoluem como banda, como também evoluem esteticamente. Aprofundando-se em temas mais ligados ao Rock norte-americano, canções como “It Won’t Be Long”, “All My Loving” e “Please Mister Postman” colocam John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr já em 1963 entre os melhores músicos da década de 1960. Os covers também aparecem em destaque como “Roll Over Beethoven” (Chuck Berry) e “You’ve Really Got A Hold On Me” (Smokey Robinson). Mas uma das melhores do álbum, talvez a melhor, é “Money (That’s What I Want)”: escrita por Berry Gordy e Janie Bradford, George Martin dá as caras no piano, Ringo Starr apavora numa bateria elegantíssima e John Lennon dá sua melhor interpretação vocal do álbum. Sublime seria um termo limitado pra definir With The Beatles!

A Hard Day’s Night (1964)


Em turnê constante, dando concertos regulares pela BBC, aparecendo na televisão e lançando singles e EPs sem LP incessantemente, bem como filmar seu primeiro filme, dá para entender que o 3º álbum dos Beatles poderia ter algum problema. Mas não! A Hard Day's Night (1964) mantém a linha evolutiva dos quatro de Liverpool a ponto de realizar seu melhor trabalho dessa primeira fase de carreira da banda. Trilha sonora do filme homônimo da banda e o primeiro álbum totalmente escrito pela dupla Lennon-McCartney, uma pequena enciclopédia de canções POP/Rock antológicas é possível de se ouvir com “A Hard Day’s Night”, “I Should Have Known Better”, “If I Fell”, “And I Love Her” (com o vocal de Paul McCartney brilhando!), “Can't Buy Me Love” (hino!), “Any Time At All”, “Things We Said Today” (uma joia musical pouco explorada pela história), além de “I’ll Be Back” (com sua estética melodicamente triste).

Beatles For Sale (1964)


O excesso que o sucesso deu aos Beatles uma hora ou outra acabaria influenciando no processo criativo das músicas e dos álbuns. E o 4º álbum de estúdio, Beatles For Sale (1964), é prova de que a beatlemania também cansava. Mas também é notório que o estilo Merseybeat do começo da carreira já estava ido embora e novas influências vindo. Uma delas, Bob Dylan! E com essa influência as composições teriam um teor mais pessoal, mais poético e muito mais crítico. Mesmo que tenha vários covers como “Rock And Roll Music” (Chuck Berry) ou “Words Of Love” (Buddy Holly), canções como “No Reply”, “I’m A Loser”, “I’ll Follow The Sun” ou “Every Little Thing” são exemplos de novos pensamentos, novos ares e uma maturidade já nítida. E Beatles For Sale também tem “Eight Days A Week”, a melhor música do álbum com o vocal duplo de Lennon e McCartney deixando essa sensação depressiva de cansaço de lado. 

Help! (1965)


Os Beatles evoluíram, amadureceram e começaram a ser uma outra banda com o álbum Help! (1965). Há neste 5º álbum de estúdio um cansaço ainda pertinente como em Beatles For Sale, mas as mudanças parecem dar conta de superar os problemas e apresentar uma coletânea de canções que começam a demonstrar aquela banda que chegou ao ápice em inventividade. Sendo a trilha sonora do segundo filme dos Beatles, Help! alcança níveis de excelência em canções como “You’ve Got To Hide Your Love Away”, “Help!”, “I Need You”, “Act Naturally” (uma country music!), “I’ve Just Seen A Face” (claramente uma influência de Bob Dylan), “Yesterday” (um dos primeiros exemplos das canções baladas de Paul McCartney e também uma das primeiras experimentações que seriam mais usadas nos álbuns seguintes!), “Dizzy Miss Lizzy” (um Rock And Roll clássico) e “Ticket To Ride” (uma das melhores músicas de toda a carreira da banda).

Rubber Soul (1965)


O começo da revolução! Ainda que se mantenham momentos românticos de álbuns anteriores, Rubber Soul (1965) é o primeiro álbum totalmente adulto, revolucionário e musicalmente contrário ao mundo POP até então criado pelo Rock e pela música do século XX. São 14 canções que nem parecem ser daquela banda que cantava “Please Mister Postman” em 1963. Canções como “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)” (um Folk Rock ao estilo Bob Dylan), “You Won't See Me” (uma comprovação do quanto Paul McCartney e Rinto Starr eram capazes de brilhar juntos), “Nowhere Man” (um exemplo de como os Beatles eram, às vezes, filósofos musicais), “Think For Yourself” (escrita por George Harrison!), “The Word” (tão moderna e surpreende que até a grandiosa banda psicodélica The 13th Floor Elevators fez cover!), “Michelle” (outra extraordinária balada cantava por McCartney), “Girl” (muito mais do que uma música, uma declamação de Lennon), “In My Life” (outro exemplo do brilho de Ringo com Lennon se destacando no vocal), “Wait” (outro exemplo da genialidade do duo Lennon-McCartney juntos!) e “Run For Your Life” (Lennon aqui demonstrando que não precisaria gritar como em “Twist And Shout” de 1963 para ser memorável). Em 1965 os Beatles já estavam a anos luz de qualquer música feita até então e Rubber Soul, primeiro álbum sem o nome Beatles na capa, se tratava de um apanhado inventivo único e raro. Primeira obra-prima da banda!

Revolver (1966)


A revolução na prática! Com Revolver (1966), 7º álbum de estúdio dos Beatles, a música, a década de 1960 e o Rock deixaram de ser primário, encantador, POP, apenas uma música adolescente e de sucesso para se tornar ARTE. Há em Bob Dylan a primazia de composições críticas, reais e ácidas, em Rolling Stones uma sujeira Blues irresistível e em Beach Boys uma sublime alienação musical californiana, mas canções como “Eleanor Rigby”, “Love You To”, “Yellow Submarine”, “Good Day Sunshine”, “And Your Bird Can Sing”, “Doctor Robert” e “Got To Get You Into My Life” transpassam uma estética musical nova, surpreendente e possível de dizer que a arte do cinema, da pintura e da literatura poderiam ter agora uma parceria em estúdio quando se pensasse em produzir e gravar um álbum de Rock. Aliando invenções técnicas com colagens sutis e até uma cítara, composições translucidas com influências distintas, há em músicas como “Taxman”, “I Want To Tell You” e “Got To Get You Into My Life” uma nova música na década de 1960 que desvendou o incrível dentro do Rock. E “Tomorrow Never Knows” fecha o álbum num lisérgico caleidoscópio musical ao sabor ácido e poético de Timothy Leary. Com Revolver (1966), os Beatles já não eram mais só uma banda de Rock, mas quatro seres compenetrados numa Arte revolucionária. Segunda obra-prima da banda!

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)


O auge da revolução! Com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) os Beatles colocavam a Arte humana no estágio mágico de experimentação, criação e capacidade técnica dentro da música. Nos álbuns Rubber Soul (1965) e Revolver (1966) há uma evolução contínua. Mas com Sgt. Pepper’s... tudo que era uma experimentação se torna uma comprovação. E uma das constatações mais possessas vem das comparações do começo da banda lá pelo ano de 1963 e como em 4 anos a banda deixou de ser brilhante para se tornar colossal. Desfilando canções que exploram a inventividade John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr e condicionam uma epopeia musical translúcida magistral. “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” (a comicidade crítica que os Beatles fazem de si mesmos), “With A Little Help From My Friends” (declaração musical perfeita do amor e empatia), “Lucy In The Sky With Diamonds” (viagem psicodélica que os Beatles mais proporcionou aos seus ouvintes), “Getting Better” (prova de que Ringo Starr é um gênio da bateria e em relação às crônicas, a banda compunha perfeitamente), “Fixing A Hole” (uma entonação de liberdade necessária), “She’s Leaving Home” (coloca em questão a divisão social), “Being For The Benefit Of Mr. Kite!” (criação imaginativa de um circo e sua fórmula comunicacional), “Within You Without You” (inclusão de George Harrison com suas ideias humanistas que se adequou da música indiana instrumental), “When I'm Sixty-Four” (reflexão de Paul McCartney sobre família, mas que destoa esteticamente do álbum), “Lovely Rita” (outra viagem psicodélica do álbum que McCartney presenteia), “Good Morning Good Morning” (apropriação crítica de Lennon em relação a passividade), “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)” (escolha estilisticamente ousada para “finalizar” o álbum com um andamento mais rápido) e com “A Day In The Life” (Lennon e McCartney exprimem numa simples música uma das maiores reflexões filosóficas e sociais do que significa a vida e o quanto ela é frágil e desumana, e tudo isso numa elevação musical que um final retumbante, ou seria a vida toda sendo relatava?). Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band também imprimiu o incrível com sua capa surpreendente onde os Beatles se entreolham e, também, convidam todos para o mundo POP. Terceira obra-prima da banda e seu disco máximo!

Magical Mystery Tour (1967)


Como se fosse uma continuação, Magical Mystery Tour (1967), lançado seis meses depois de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), saiu primeiro como EP no Reino Unido e nos EUA saiu como um “álbum mais completo” e demonstra fervorosamente como as experimentações dos quatro beatles estavam em ponto de ebulição. E o exagero e o fantasio sucesso de Sgt. Pepper’s... acabou por deixar esta obra em um “nível menor”. Mas canções como “Magical Mystery Tour”, “The Fool On The Hill”, “I Am The Walrus”, a belíssima “Hello Goodbye”, a clássica “Strawberry Fields Forever” (esta deveria ter entrado em Sgt. Pepper’s...), a encantadora “Penny Lane” e “All You Need Is Love” (com um refrão inesquecível!) atestam um ótimo álbum com seu sucesso.

The Beatles (1968)


E a revolução se multiplica! Há uma constatação na vida que é o tempo. Com o tempo todos mudam, todos se tornam adultos e percorrem novos caminhos, sejam eles quais forem. E com os Beatles isso também aconteceu. Desde o álbum Rubber Soul (1965) a maturidade de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr era latente e as experimentações estéticas musicais da banda também tinham um paralelo: experimentações pessoais. Diferenças criativas, crenças religiosas, drogas, além de Yoko Ono (o mais conhecido!), tornaram os quatro de Liverpool diferentes entre si, mas não menos geniais. The Beatles (1968) saiu apenas com o nome da banda em sua capa toda branca (se detalhando num lugar estratégico) e mais nada; e este disco ficou conhecido pra sempre como White Album. São 30 músicas que recheiam este disco duplo lançado em 22 de novembro de 1968. Lembrando que Rubber Soul havia sido lançado 5 anos antes, dá para perceber como a vida evolui com gênios. Todos da banda apresentam suas próprias autorias. Não apenas Lennon e McCartney, mas George Harrison (a genial “While My Guitar Gently Weeps”), e Ringo Starr (“Don't Pass Me By”) também dão seus tons musicais. E The Beatles é uma incansável enciclopédia de ideias inventivas e suas dispersões são tantas que fica difícil elencar “as melhores”, mas algumas se tornaram icônicas como “Back In The U.S.S.R.”, “Dear Prudence”, “Helter Skelter” e “Revolution”. Depois de The Beatles, os Beatles nunca mais seriam o mesmo e o fim da banda já se notara triste e magistralmente. Quarta obra-prima da banda!

Yellow Submarine (1969)


Yellow Submarine (1969), considerado o 10º álbum de estúdio dos Beatles, se Magical Mystery Tour (1967) for considerado um EP em seu lançamento original no Reino Unido, pode não ser realmente um álbum. Trilha sonora original do terceiro filme/animação de mesmo nome, Yellow Submarine se baseia em quatro novas canções, o relançamento de “Yellow Submarine” e “All You Need Is Love”, além de regravações de faixas do filme orquestradas pelo produtor George Martin. Por mais que se fale que Yellow Submarine possa ser “descartável” da discografia da banda, “All Together Now” é um encantador experimento de McCartney e “Hey Bulldog” traz um momento estupendo de Lennon nos vocais e piano.

Abbey Road (1969)


Abbey Road (1969) foi desenvolvido como a despedida dos Beatles. E poderia ter sido uma despedida surpreendente. Acoplado em diferenças, despedidas e numa força criativa ainda em expansão, canções como “Come Together” (profundamente sexual), “Something” e “Here Comes The Sun” (aprovando George Harrison como magistral compositor) e “I Want You (She’s So Heavy)” (Lennon expondo seus sentimentos em relação a Yoko Ono) atestam um álbum que poderia ter muito mais a dar do que realmente praticou, e com certeza sua falta em listas dos melhores álbuns dos Beatles poderia ser outra. Outra formalidade do álbum é sua capa, os quatro passeando por uma faixa de pedestre. Imagem histórica!

Let It Be (1970)


Let It Be (1970), o falso último álbum dos Beatles, já que foi quase todo gravado antes de Abbey Road (1969), foi muito criticado e até hostilizado; principalmente pelo fato dele representar o fim da banda e ninguém queria isso. Mas Let It Be deveria ter outro patamar com compreensões e interpretações mais factuais e precisas. Trata-se, obviamente, de um álbum notável e poderoso! Phil Spector, o produtor do álbum, foi limitado a mixagens e alguns overdubs, e mesmo em clima de desaforo, discussões e uma distância musical e pessoal em estado de urgência, canções como “Dig A Pony”, “Across The Universe”, “I Me Mine”, “Let It Be”, “I’ve Got A Feeling”, “The Long And Winding Road” e “Get Back” são excelentes e clássicas. Além do “fim dos Bealtes”, Let It Be também atesta como o fim da década de 1960 e abra a década de 1970 trazendo um amargo musical genial que dá luz aos momentos mais tensos que a vida proporciona como crônica da vida para o Rock. Se o Heavy Metal pode ser colocado como iniciante em canções como “Helter Skelter” do álbum The Beatles (1968), é com Let It Be que o sonho da liberdade e da existência poética se findam para uma dura e apassiva realidade.

Por Eduardo Lima

11 de mai. de 2020

Linhas do Rock #007: Kraftwerk e o Synthpop

by on segunda-feira, maio 11, 2020

Este texto é uma homenagem a Florian Schneider (1947-2020), um dos fundadores do Kraftwerk.

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A década de 1980 foi marcada, musicalmente, pelo uso de sintetizadores. Depois de bandas como Kraftwerk e Emerson, Lake & Palmer colocarem as teclas como um instrumento vivo nas décadas de 1960 e 1970, o Rock da década de 1980 viu surgir uma indústria de teclados variados que se tornaram influentes para a música numa estética de “composição pela alienação futurista”. E este movimento musical se chama Synthpop.

O primeiro grande hit do Synthpop foi a canção “Cars” do músico inglês Gary Numan, abrindo novos caminhos musicais para bandas como The Human League, Depeche Mode, Devo, Heaven 17, OMD, Taco, Falco, Thomas Dolby, The Buggles, China Crisis, Soft Cell, Talk Talk, ABC, A Flock Of Seagulls, Spandau Ballet, Visage, entre outros.

Até mesmo os remanescentes das décadas anteriores aderiram aos sintetizadores como Alice Cooper, Neil Young, Robin Gibb (leia-se Bee Gees), Black Sabbath (se bem que na década de 1970 já havia em álbuns como Sabbath Bloody Sabbath o uso de sintetizadores!) e muitos outros.

As principais bandas deste movimento foram:


A-HA
Advindos da Noruega, o A-HA se tornou um símbolo do Synthpop com melodias românticas e uma conquista de fãs pelo mundo todo. Seu primeiro álbum, Hunting High And Low (1985), possui um dos maiores hits da década: “Take On Me”. Os álbuns seguintes Scoundrel Days (1986) e Stay On These Roads (1988) também foram sucesso de vendas e mantiveram o nível da banda.


ALPHAVILLE
Uma das bandas mais elegantes da década de 1980, o Alphaville lançou o primeiro álbum, Forever Young (1984), e emplacou, principalmente na Europa, grandes hits como a faixa-título e “Big In Japan”.


JAPAN
Apesar de um experimentalismo exacerbante, o Japan, do ilustre vocalista David Sylvian, floresceu numa influência gigantesca pela década de 1980. Muito ousados, o sucesso foi pequeno, mas álbuns como Queit Life (1979) e Gentlemen Take Polaroids (1980) são clássicos obscuros e essenciais do Synthpop.


TALK TALK
Talk Talk é sempre reconhecido pelo seu grande hit “It’s My Life”, do álbum homônimo de 1984. Mas álbuns como The Party’s Over (1982) e The Colour Of Spring (1986) também são ótimos.


THE HUMAN LEAGUE
Outra grande banda do Synthpop foi o The Human League. Advindos Sheffield, Inglaterra, Philip Oakey, Martyn Ware e Ian Craig Marsh, além das belíssimas cantoras Joanne Catherall e Susan Ann Sulley, trouxeram um dos maiores exemplos da década como o álbum Dare (1981), principalmente pelo hit “Don’t You Want Me”.


ULTRAVOX
O Ultravox possui duas fases distintas: a primeira, ainda pela década de 1970, mais Punk e New Wave; a segunda, já na década de 1980, totalmente Synthpop. O álbum Vienna (1980) é um clássico exuberante!


SOFT CELL
O vocalista Marc Almond e o tecladista David Ball formaram o duo Soft Cell. Um dos maiores hits não apenas do Synthpop, mas também de toda a década de 1980, “Tainted Love” (gravada originalmente em 1954 por Gloria Jones), é um manifesto moderno e crítico. E esta música está no álbum Non-Stop Erotic Cabaret (1981), um dos maiores da década.


DURAN DURAN
O Duran Duran foi outro grupo muito famoso da década de 1980, principalmente pelo sucesso de seus clips e por sua estética New Romantic; mas eles também tiveram no Synthpop sua criação musical básica. Seu segundo álbum de estúdio, Rio (1981), possui quatro singles arrasadores: “My Own Way”, “Rio”, “Hungry Like The Wolf” e “Save A Prayer”.


NEW ORDER
Com o fim da banda Joy Division (depois do suicídio do gênio Ian Curtis), Peter Hook, Stephen Morris e Bernard Sumner formaram o New Order. Deixando de lado as críticas filosóficas e obscuras de Curtis, álbuns como Power, Corruption & Lies (1983) e Low-Life (1985) rejuvenesceram seus músicos e clássicos como “Blue Monday” e “The Perfect Kiss” não apenas iluminaram ainda mais o Synthpop, como também o Rock e a Música Eletrônica da década de 1980.

***

Talvez você leitor esteja se perguntando o que um texto como este sobre o Synthpop da década de 1980 tem a ver com Florian Schneider e a banda Kraftwerk. Praticamente tudo! A estética musical do Kraftwerk ressoou e ainda ressoa em toda a música moderna feita a partir da segunda metade da década de 1970. Álbuns como Autobahn (1974), Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977) e The Man-Machine (1978) se tornaram um escopo influente, talvez, até maior do que os Beatles.

Concluindo uma música hipnótica, melodicamente minimalista, oblíqua e executada apenas por meios eletrônicos, o Kraftwerk produziu uma nova forma de se pensar e, ao lado de Brian Eno, conseguiu criar novas formas musicais em texturas estruturadas além do Rhythm And Blues pela década de 1970. E, claro, a influência dessa música estourou em movimentos musicais como o Synthpop!

Por Eduardo Lima

4 de mai. de 2020

Linhas do Rock #006: 50 anos do Heavy Metal

by on segunda-feira, maio 04, 2020

Estamos em 2020, século XXI. O Rock completa 70 de história, aproximadamente. Há consensos de que tudo se cria em datas rupturas. Mas historicamente falando, isso sempre é relativo. Por exemplo, quando começou o Capitalismo, sistema econômico, social e cultural na qual vivemos atualmente: seria com as Grandes Navegações do século XV e XVI ou já havia um “capitalismo” sobrevoando o mundo durante a Idade Média?

Na música do século XX também há dúvidas. Mas um fato é claro: o Rock domina a cultura deste século envolvido por três grandes guerras (1º e 2º Guerra e Guerra Fria). Nada melhor do que se soltar ouvindo uma música rápida, alta e envolvente para esquecer das bombas, das armas e dos corpos espalhados num mar de sangue, por exemplo, por toda a Europa.

O Rock possui uma influência fácil de se ocupar culturalmente. Juvenil, simples e constantemente alegre, este estilo musical consegue façanhas que, imagino, nenhum outro estilo musical conseguiu. Talvez o Jazz e a Música Clássica tenham uma estrutura histórica mais rígida (óbvio, são mais antigas!), mas o Rock adentrou situações sociais e regiões pelo mundo afora que nem mesmo os gênios Vivaldi, Bach, Beethoven, Ella Fitzgerald, John Coltrane e Miles Davis conseguiram; e olha que com estes nomes a música se elevou como nunca!

A partir da década de 1950, os EUA viram surgir um movimento musical descompromissado e cheio de energia jovem que serviu como morfina para os dramas de guerra que a 2º Guerra Mundial impôs ao seu país vencedor. Soma-se a isso a cultura consumista que o Capitalismo atingiu numa sociedade conservadora na qual os jovens eram dotados como meros seguidores de estereótipos. O Rock pôde, assim, desvencilhar os jovens de seus “tutores” para poder conseguir algo mais a ver com seus pensamentos, sonhos e vontades sexuais.

Durante as décadas de 1950 e 1960, o Rock proporcionou mudanças não apenas musicais, mas culturais. Desde atitudes em meros movimentos para tocar um instrumento até nas mudanças de seus andamentos melódicos, e passando pela simples mudança de vestimenta, o Rock imprimiu uma nova forma de ser e viver a vida. O Blues Rock e o Rock Psicodélico (além de outros!), aliados à liberdade de consumo, fez com que milhares de jovens vissem numa simples música uma vida melhor e mais alegre, além de uma liberdade nunca antes sentida.

Mas...

A vida não é tão simples assim. Nunca foi, não é e nunca será. Há nas análises históricas e filosóficas uma compreensão até simples de que a vida humana na Terra possui mais crises do que belos momentos sociais generalizados. O mundo muda a cada 10, 50, 100, 500 anos. E muda muito, mas nem sempre para uma melhor situação. Numa análise mais fria e extensa, dá para perceber que a vida humana dentro da estética do Capitalismo se perpetua por moldes extremamente simples. Ou você é rico, classe média ou pobre; também há possíveis diferenças entre essas camadas, mas elas se dividem basicamente assim.

E qual o motivo de se pensar assim? Simples: o Rock se situa numa linha tênue socialmente falando. Ao mesmo tempo que os brancos classe média se regozijaram nos rebolados de Elvis Presley, o negro da periferia também queria curtir. E o Rock “negro” da década de 1950 se fez presente e marcante; vide Little Richard e Chuck Berry!

E a grande revolta? Vem quando?

A década de 1960 responde por isso. Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Kinks, The Stooges, The Velvet Underground e muitos outros trouxeram elegâncias, desconstruções e filosofias “punks” ao Rock e o mudaram pra sempre. Mas parece que ainda não se tinha no Rock uma revolta social tão grande como se deveria... E isso está no DNA do Rock: sempre haverá motivos sociais, culturais e econômicos para que a revolta se diferencie e se torne maior, além de necessária.

Há na Europa durante a segunda metade da década de 1960 uma emaranhada crise mercantil e industrial que poderia se resumir facilmente na Inglaterra. Várias indústrias ainda com pensamentos do século XVIII não tratavam seus funcionários como se deveria, ou mesmo o desemprego que de tempos em tempos assola as sociedades como um sapato esmagando uma barata.

Socialmente falando, a vida econômica tem um baque gigantesco. As sociedades agonizam por séculos pelas mudanças mercantis. E o século XX não foge disso. Na Inglaterra e nos EUA há uma geração do final da década de 1960 que não aguenta mais as agruras do sistema e das famílias conservadores e apregoam novos moldes musicais ao Rock. Daí surgem bandas como Cream, Blue Cheer, Iron Butterfly e Steppenwolf, além de muitas outras, e começam a influir nas suas músicas um peso e uma revolta estética inédita.

Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath!

Mas é com a tríade inglesa Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath que o termo heavy metal surge de forma estetizada e conclusiva. De origem incerta, talvez tenha nascido da literatura, do movimento hippie ou mesmo do jornalismo musical, o Heavy Metal a partir de 1970 se torna a música que impacta o rock. Há uma dualidade entre Heavy Metal e Punk Rock, principalmente em saber qual estilo musical é mais influente e abrangente; seria mais interessante dizer que o Heavy Metal e o Punk Rock são, ao mesmo tempo, influentes e abrangentes da mesma forma!

A banda Led Zeppelin lançou, ainda em 1969, dois álbuns fundamentais: Led Zeppelin e Led Zeppelin II. Peso, criatividade musical, competência técnica e inventividade estética fazem de canções como “Good Times Bad Times” e “Whole Lotta Love” grandes acontecimentos de peso no Rock.

Já o Deep Purple possui um começo de banda mais ligado ao Rock Progressivo, vide os álbuns Shades Of Deep Purple (1968) e The Book Of Taliesyn (1968). Mas com o álbum In Rock (1970), músicas como “Speed King” inauguram uma força sônica incrível numa das bandas mais técnicas da década de 1970.

Entretanto, a banda símbolo do Heavy Metal e que se representa como pedra angular é Black Sabbath. E por isso o ano de 1970 é caracterizado como o início do Heavy Metal. Seus dois primeiros álbuns, Black Sabbath (1970) e Paranoid (1970), lançados respectivamente em fevereiro e setembro, conduziram o Rock para um novo patamar de peso, de revolta e de congruências negras. Se na década de 1950 havia uma ideia de que o Rock era algo ligado ao Demônio e às forças ocultas, em 1970 a banda Black Sabbath transformou todos os medos religiosos medievais em atos musicais com acordes rápidos e riffs cortantes. Canções como “The Wizard”, “N.I.B.”, “War Pigs”, “Paranoid” e “Iron Man” trouxeram o medo e o peso como símbolos de uma música regrada pela crise social e pelo poder que a arte e a cultura possuem para fazer crônicas antológicas do que se convém observar como desgraça humana cotidiana.

As guerras, as doenças, a pobreza, a sociabilidade falha das nações, a nefasta influência religiosa cristã da Idade Média e a entropia social proporcionada pelo Capitalismo e pela indústria são alguns exemplos de como o Heavy Metal não surgiu apenas como um mero movimento musical dentro do próprio Rock, mas também como uma necessidade histórica que a sociedade europeia e norte-americana se viram obrigadas a se portar.

Se na década de 1960 havia o movimento hippie para saldar uma nova forma de vida mais humana, plural e sentimental, a virada 1960/1970 se fez necessária com uma visão cultural e musical mais abrangente do que simplesmente fazer “poesia sobre flores”. Há na cultura medieval várias facetas de como o povo sofria sob uma época toda voltada para opressão religiosa e econômica de poucos sobre todos. Mas com os riffs de Tony Iommi, as sinistras linhas de baixo de Gezzer Butler, as batidas ocultas de Bill Ward e a voz crua/delinquente de Ozzy Osbourne puderam conduzir a música à realidade como ela é: violência, imposição histórica das crenças e o poder de poucos através da opressão.

E a primeira música do primeiro álbum do Black Sabbath, chamada “Black Sabbath”, nada mais é do que o início do mal como cronista dos nossos péssimos dias que temos. Tanto o cinema, quanto a música, se unem em trombetas alucinantes iniciadas por chuva e um sinistro sino para ilustrar o quanto a nossa vida é suja, em crise e hipócrita.

E resto disso é história; uma história com 50 anos de postura crítica e imponente, além do peso em variados dissonantes evolutivos.

Viva o Heavy Metal e sua maneira pesada, obscura e sincera de expor a indolente vida como ela realmente é!

“What is this that stands before me?
Figure in black which points at me
Turn around quick, and start to run
Find out I'm the chosen one
Oh no!”

“Black Sabbath”, Black Sabbath (1970)

Por Eduardo Lima

3 de mai. de 2020

Review: Anselmo do São Carlos DJ - Quarentena Brutal (2020)

by on domingo, maio 03, 2020

O atual momento mundial diante da proliferação do Covid-19 está causando muitas desgraças e mortes. E no Brasil este fato se corrobora por vários fatores: desigualdade social, má administração histórica do setor da saúde e, claro, por ter um governo atual despreparado e descompromissado com a nação como um todo.

Mas muitas pessoas estão tendo a oportunidade, além do inebriante clima fúnebre, de observar muitos artistas apresentando suas devidas lives e várias notícias de projetos, principalmente ligados à música. 

Anselmo do São Carlos DJ, música oriundo dos confins do Rio de Janeiro, aproveita tal clima horrível e apresenta um trabalho pomposo, sincero, possesso e pessoal. Seu álbum Quarentena Brutal (2020) se vale de oito canções de no máximo um minuto e meio (apenas uma canção possui 2 minutos e 50 segundos). E neste álbum vários temas relacionados ao momento atual são elevados em condições de questionamentos filosóficos musicais orquestrados em texturas melódicas simples, mas poderosas. São elas:

1. “Marcha Fúnebre do Bolsonaro”
2. “Você Já Ficou Muito Louco Por Causa De Amor?”
3. “Babu Santana Sangue Bom Curtindo Um Som Na RPC Em 1991”
4. “Disseram Que O Coronavírus Comprometeu A Estrutura De Um Prédio Do Centro Da Cidade (Parte 1)”
5. “Disseram Que O Coronavírus Comprometeu A Estrutura De Um Prédio Do Centro Da Cidade (Parte 2)”
6. “Quarentine Life”
7. “Doideira Pensar Que A Covid-19 Talvez Dê Um Jeito No Calendário Do Futebol Brasileiro”
8. “Aquele Rock Do Ween Pela Salvação Da Vida Na Terra, O Nosso Planeta (Bolsonaro Empolado)”.

Lançado pela 13Discos, o álbum, climatiza (longe de um eletrônico Ambient Music!) mixagens eletrônicas com instrumentos como bateria e possibilita percepções sensoriais. Passando por vários “estilos” como noise, funk, eletrônico e alguns sucintos temas de Rock, canções como “Marcha Fúnebre do Bolsonaro” são mais um manifesto musical do que propriamente música.

O deste manifesto, como as outras canções, é possível observar/ouvir uma intencionalidade intelectualizada de postergar uma crítica social e humana travestida de música submersa em um grande estado de letargia. E um exemplo é a canção “Disseram Que O Coronavírus Comprometeu A Estrutura De Um Prédio Do Centro Da Cidade (Parte 1)”, na qual é possível de se imaginar uma verdadeira corrosão do tal prédio que o nome da canção diz pela sucessão das texturas em forma poética e triste.

E o maior destaque fica para a última canção, “Aquele Rock Do Ween Pela Salvação Da Vida Na Terra, O Nosso Planeta (Bolsonaro Empolado)”, numa “homenagem” para a banda alternativa Ween da década de 1990 e anos 2000.

Anselmo do São Carlos DJ cresceu no Rio de Janeiro nas décadas de 1980 e 1990 e, absolutamente claro, é possível de ser perceber que também cresceu adquirindo e ouvindo estágios diferentes de influências musicais múltiplas. E seu trabalho Quarentena Brutal (2020) é uma sucinta reunião de influências musicais, brutas experimentações e um condicionamento crítico social que beira o distinto. Música brasileira feita mais por uma sensação de crítica social do que, simplesmente, composições criadas em si. E isso é impressionante!

Por Eduardo Lima (Duzão do Blog)

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