17 de nov de 2018

Rock in Rio 1991: 10 curiosidades sobre a 2ª edição do evento

by on sábado, novembro 17, 2018

A segunda edição do Rock In Rio foi realizada entre os dias 18 e 27 de janeiro de 1991. Veja, abaixo, 10 curiosidades sobre o evento:

1) "Mistureba"

Diferente do que muitos dizem, as edições iniciais do Rock In Rio não eram mais "roqueiras" que as atuais. Prova disso é o festival de 1991, que concentrou as atrações "pesadas" em apenas duas datas - e com parte delas se repetindo em ambos os dias em questão.

Outros dois dias orientados ao rock já agregavam, também, em nomes mais pop ou alternativos, como INXS e Happy Mondays. Veja:

18/01: Prince, Joe Cocker, Colin Hay, Jimmy Cliff.
19/01: INXS, Carlos Santana, Billy Idol, Engenheiros do Hawaii, Supla, Vid & Sangue Azul.
20/01: Guns N' Roses, Billy Idol, Faith No More, Titãs, Hanoi Hanoi.
22/01: New Kids On The Block, Run DMC, Roupa Nova, Inimigos do Rei.
23/01: Guns N' Roses, Judas Priest, Queensryche, Megadeth, Lobão, Sepultura.
24/01: Prince, Carlos Santana, Laura Finocchiaro, Alceu Valença, Serguei.
25/01: George Michael, Deee-Lite, Elba Ramalho, Ed Motta.
26/01: Happy Mondays, Paulo Ricardo, A-Ha, Debbie Gibson, Information Society, Capital Inicial, Nenhum de Nós.
27/01: George Michael, Lisa Stansfield, Deee-Lite, Moraes Moreira e Pepeu Gomes, Leo Jaime.

2) Muita grana

Apesar de estar no auge naquele momento, o Guns N' Roses não foi o responsável pelo maior cachê do Rock In Rio 1991. Eles receberam R$ 1 milhão pelos dois shows, enquanto Prince e George Michael faturaram US$ 1,5 milhão - ambos também fizeram duas apresentações.


3) Pouca grana

A contratação do Faith No More para o Rock In Rio 1991 foi sugestão do Guns N' Roses. E a banda cobrou o menor cachê do evento: US$ 20 mil.


4) Vanguarda

Sempre antenado no mercado gringo, o Rock In Rio nunca fez feio em suas escalações. No metal, por exemplo, trouxe nomes que estavam em alta na época pelos álbuns de sucesso lançados no ano anterior. 

Casos de Queensryche ("Empire"), Megadeth ("Rust In Peace") e Judas Priest ("Painkiller"). É curioso pensar como seria a line-up se o evento tivesse sido adiado para 1992 - o metal, provavelmente, daria lugar ao grunge.


5) Exigência anti-Poison

O Guns N' Roses fez exigências peculiares para se apresentar no evento. O grupo pediu que o Poison não tocasse naquela edição do Rock In Rio. Solicitou-se, ainda, a ausência de pirotecnia e da tradicional moto no show do Judas Priest - só a primeira situação foi atendida.

6) Estranho no ninho

Lobão era um estranho no ninho do metal. Ele tocou depois do Sepultura e antes do Megadeth no evento. Ele já estava sendo criticado antes mesmo de subir ao palco e foi tão vaiado que abandonou o show ainda na segunda música do repertório.

Aí entra a bizarrice: a bateria da Mangueira, que faria uma participação em uma canção do repertório, acabou subindo ao palco sem ele. Nem mesmo o piti de Lobão impediu que os metalheads vissem a Mangueira entrar (e é claro que esse trocadilho seria feito).


7) Transmissão

Cerca de 580 milhões de pessoas assistiram à edição de 1991 pela televisão, com exibição em 55 países. Em tempos sem internet e com TV paga ainda engatinhando, trata-se de uma marca expressiva.


8) Fora do habitat

O Rock In Rio 1991 foi a única edição brasileira do festival, até o momento, a acontecer fora da Cidade do Rock. O evento foi realizado no estádio do Maracanã. O gramado foi adaptado e o público também ocupou as arquibancadas.

9) Menor de três

O Rock In Rio 1991 teve o menor público entre as três primeiras edições do festival. Foram 700 mil pessoas, distribuídas em nove dias. Por outro lado, o recorde mundial de pagantes em um evento foi batido durante o show do A-ha no evento: 198 mil pessoas.

10) Bial e o bumbum

Pedro Bial ficou como comentarista da transmissão do evento. Ele até fez alguns comentários precisos (vale lembrar que não existia internet na época), mas cometeu gafes e ficou aficionado pelo bumbum e pelos shorts de Axl Rose. Veja um compilado de comentários:


Por Igor Miranda
Postando em Whiplash.Net

8 de nov de 2018

Discos Clássicos: Queen - A Night at the Opera (1975)

by on quinta-feira, novembro 08, 2018

Como todos já sabem, o Queen é uma banda de vários sucessos e muito amada pelo mundo, inclusive no Brasil, onde já vieram duas vezes. Em 1985, apareceram no Rock in Rio em duas apresentações e uma delas foi lançada em vídeo que é lembrada como uma das maiores da história, principalmente pela performance de Freddie Mercury com o público em "Love of My Life".

A Night at the Opera é um disco ousado, pela primeira vez no rock se usava 'vocais de ópera' em uma banda. Freddie, sempre inovador, chegou com a letra de "Bohemian Rapsody" para mostrar à todos quando depois de apresentar o começo da canção disse: "Que tal colocar uns 'Gallileo' e 'Mama mia'?", espanto geral. "Bohemian Rapsody" seria um suicídio comercial com os seus exatos 5 minutos e 55 segundos & Gallileo e Mama Mia. Calou a boca de todos, virou um clássico da música mundial.

O disco abre com "Death on Two Legs (Dedicated to...)" passando por "I'm in Love with My Car" , "'39" e a eterna balada "Love of My Life", fechando com "God Save the Queen", o hino da Grã-Bretanha pela guitarra Red Special de Brian May.

A capa de A Night at the Opera (Como em A Day at the Races) foi desenhada por Freddie. Ele era design gráfico.

Uma verdadeira obra de arte, gráfica e sonora.

29 de out de 2018

Discos Clássicos: Sex Pistols - Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols (1977)

by on segunda-feira, outubro 29, 2018

Começando este sábado de halloween com um disco clássico do punk rock. Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols é o primeiro e único disco dos ingleses do Sex Pistols.

Banda idealizada pelo manager Malcom McLaren, depois de ter tido experiências com o New York Dolls e de ter ”roubado” o visual do Richard Hell, importando para a Inglaterra, Malcom tinha uma loja de roupas com sua esposa Vivian, chamada “SEX” e acreditasse que o nome da banda tenha saído daí. O grupo então com Steve Jones, Glen Matlock, John Lydon (ou Johnny Rotten) que viria a fazer mímica de ”School’s Out” para entrar na banda, junto com Paul Cook, formaram o que chamam de fase inicial dos Pistols.

Depois de ensaios e mais ensaios, a banda começa a compor e surgem músicas que apareceriam em seu 'debut'. “Anarchy in the UK” que se tornou um hino da anarquia, passando pela pesada letra de “Bodies”, “Problems” a memorável “Pretty Vacant”, e as outras faixas (não menos importantes - de jeito nenhum) que fazem do disco o nascimento de uma agressividade antes nunca vista.

E como estamos falando de uma das bandas mais emblemáticas da história do rock, não poderia faltar as confusões: Rompidos de duas gravadoras… Banidos da TV inglesa depois de falarem palavrões como “Shit” (!!!)… Shows cancelados… Baixista expulso por gostar de Beatles e ABBA… Entrada de Sid Vicious… “God Save The Queen” no rio Tâmisa no dia do Jubileu da Rainha & Prisão… Lançamento do disco…Turnê americana e FIM. Isso mesmo. Resumidamente, foi isso.

As pistolas do sexo não duraram muito tempo, mas foi o bastante para a sua assinatura na história, com uma das maiores bandas de todos os tempos. De Joy Division a Megadeth, todos beberam dessa fonte.

(Originalmente publicado no Melodias Erráticas em 31 de outubro de 2015)

Linder Sterling: Viciada em criar

by on segunda-feira, outubro 29, 2018

Linda Sterling nasceu em 1954, em Liverpool, terra dos Beatles. Mas não foram os Beatles que a ligaram com a música.

A família de Linda é o retrato da desigualdade que todo brasileiro conhece bem. Até aquele momento, nem todo britânico tinha acesso à educação, de qualidade ou não. Linda foi o primeiro membro dos Sterlings a conseguir cursar faculdade. Em 1973, ela mudou-se pra Manchester pra estudar arte.

Ela disse certa vez: “quando fui à escola de arte, eu era a única pessoa da minha família a conseguir estudar depois dos quatorze anos de idade. Quem chegasse nessa idade já tinha que estar ralando de sol a lua. Então, eu tinha que provar que o esforço valia a pena. Mas, já em 1976, eu estava bem entediada em desenhar e acabei destruindo toda a minha produção. Foi um ato bem punk aquilo – destruir o passado por tédio. E assim, de repente, meu cotidiano me colocou em contato com pessoas que pensavam o mundo de modo semelhante: Jon Savage, Pete Shelley, do Buzzcocks, Howard Devoto, do Buzzcocks e Magazine etc.”.
O punk abriu as portas pra ela. E a mente. Ela resolveu se reinventar. Mudou o nome de Linda pra Linder, sem o Sterling, “uma palavra… germânica, misteriosa”.

Nessa época, junto com jornalista Jon Savage criou o fanzine “The Secret Public”, um dos primeiros ligados à estética punk em Manchester. Savage é o autor de “England’s Dreaming”, o livro definitivo sobre o punk, lançado em 1991. Ela já havia iniciado seus trabalhos com colagem dois anos antes, mas o zine foi o primeiro produto impresso e comercializado.

Os dois publicaram o fanzine em janeiro de 1978, através do selo criado pelo Buzzcocks, o New Hormones. O zine foi o segundo número do catálogo – o primeiro foi o sete polegadas “Spiral Scratch”, do Buzzcocks, lançado em janeiro de 1977, com produção de Martin Hannett, antes dele se enfiar com o Joy Division; diz-se que esse foi o primeiro disco punk independente (você pode ouvir na íntegra no vídeo abaixo).



Logo, Linder estava fazendo cartazes e flyers pra shows do Buzzcocks, Joy Division, Magazine e da Factory Records, de Tony Wilson.

As colagens eram uma forma de arte que tinha tudo a ver com o punk, segundo ela: “era o caminho mais palpável. Pra mim, era sobre dar sentido ao mundo. Com a colagem, você transforma as coisas. Eu usava fotografias de utensílios domésticos – aspiradores, ferros, liquidificadores etc. – e fotografias de pessoas. Com as colagens, tudo fica em aberto, literalmente. Os corpos de transexuais são colagens por natureza, uma mistura cirúrgica e biológica de homem e mulher. Eu acrescento imagens da natureza – cobras, aves de rapina, lagartos, fungos – e crio um furacão hormonal”.

Quando ela começou a fazer suas colagens, as lojas de fotocópias se recusavam a copiá-las. Havia só dois lugares em Manchester que faziam fotocópias e nenhum deles aceitava o trabalho. Ela enviava os trabalhos a Savage em Londres e lá ele conseguia fotocopiar e, então, imprimir.

Nesse meio, ela logo se deparou com o trabalho que literalmente mudaria sua vida. John Robb, o jornalista malucão que entrou pra história como o autor da primeira entrevista da história do Jesus & Mary Chain (leia aqui o delicioso caso) decretou num artigo de 2007 pro The Guardian que a capa do single “Orgasm Addict”, do Buzzcocks, lançado em 1977, era a “melhor capa de um single em todos os tempos, nem precisa de concurso”.

“O single de sete polegadas era o veículo pop perfeito”, escreveu. “A era punk coincidiu com uma súbita explosão da arte das capas. Todas as semanas, uma imagem fantástica e selvagem acompanharia a última missiva da linha de frente do punk rock. Embora houvesse uma enxurrada sem fim de trabalhos de colagens, o de Linder foi perfeito”.

A capa do single chocou porque trazia uma mulher nua num fundo amarelo impactante (graças ao designer gráfico Malcolm Garrett, que também assina capas do Duran Duran, Simple Minds e Peter Gabriel, entre outros). A cabeça da mulher foi substituída por um ferro de passar roupa. No lugar dos mamilos, duas bocas sorridentes e cheia de dentes, com um batom destacado. A pose era sensual. E o título do disco, todo desconstruído. “Era difícil, sexy, perigoso, engraçado e reforçava um ponto feminista corajoso e poderoso. O fundo amarelo brilhante tornou-se ainda mais rígido”, apontou Robb.

O que ela fez foi fundir os dois mundos, o que as revistas masculinas vendiam como sendo “de homem” – carros, mulher pelada, pornô – e o que as revistas femininas vendiam como sendo “de mulher” – moda, beleza e utensílios domésticos. Linder disse “não” a isso. Não existe “mundo de mulher” e “mundo de homem”. E uma música cujo título é “viciado em orgasmo” falava com todo mundo, era o veículo perfeito, afinal homem ou mulher, não importa, todos, se pudessem e não fossem castrados por determinadas morais impostas, gostariam de viver só do intenso prazer que um orgasmo proporciona. Há toda essa informação naquela capa pra quem quiser perceber.

Além do mais, Pete Shelley, que anos depois assumiu ser bissexual, não especificava gêneros em suas canções, o que acabava corroborando com a premissa de Linder.



Linder não ficou só nas colagens. Ela vivia rodeada de música, saía com Howard Devoto, líder e fundador do Buzzcocks e depois do Magazine, e teve também sua banda, a Ludus. O grupo de pós-punk lançou dois álbuns, “The Seduction” (1981) e “Danger Came Smiling” (1982), misturando jazz, avant-garde, punk e uma enorme dose de pretensão.

Em 1982, se apresentou com um vestido feito de carne, no famoso Haçienda, em Manchester. Décadas depois, Lady Gaga faria o mesmo, sem dar o devido crédito. A banda acabou um ano depois.

Ela também se tornou uma das melhores amigas de Morrissey. Em 1976, Linder conheceu Stephen Patrick Morrissey, um aspirante a jornalista, que foi à passagem de som do show onde o Johnny Thunders & The Heartbreakers e o The Clash abririam pro Sex Pistols. Ele se apresentou como escritor de um jornal de Nova Iorque. Ela é cinco anos mais velha que ele e mesmo assim a conexão foi instantânea. “É difícil de definir, mas houve uma química imediata entre nós. Ele parecia ótimo, com uma grande camisa branca e jeans velhos, e ele era muito engraçado”, ela disse. Os encontros dos dois, pra conversar sobre literatura, aconteciam no lúgubre Southern Cemetery em Manchester. Foi pra ela que ele escreveu “Cemetery Gates”, um dos muitos clássicos dos Smiths. Ela publicou em 1992 “Morrissey Shot”, um livro de fotografias com Morrissey em ação.



Curiosamente, essa personagem tão intrigante quase não é conhecida ou aparece nas biografias e filmes da época. Robb destaca que “quando contaram a história de Manchester, em ’24 Hour Party People’, esqueceram dela. É como se a história tivesse sido reescrita. Se o punk se tornou a história do Clash, perdendo todas as partes estranhas e interessantes, então a história de Manchester foi reduzida a uma série de idiotas tomando drogas e fazendo discos. É um crime. Linder merece seu lugar na história só pela capa de ‘Orgasm Addict'”.

É um reducionismo, por certo. Ela merece por mais: é uma artista instigante que não teve ou tem medo de se aventurar em qualquer expressão artística (colagens, música, pintura e até balé), feminista atuante, bem humorada pra contar a sua história e daquela época e uma criadora provocativa.

Linder é viciada em criar.

Por Fernando Augusto Lopes
Postado em Floga-se

22 de out de 2018

O jazz como vanguarda alternativa da música pop

by on segunda-feira, outubro 22, 2018
Kamasi Washington (Divulgação)

Vou ser sincero com vocês: demorei décadas para entender o Jazz. Guardem isso porque será difícil ver alguém escrevendo sobre música admitir isso. Era um gênero musical quase impenetrável para minha capacidade de compreensão e, apesar de vários esforços em diferentes épocas da vida, só há pouco consegui começar a entendê-lo e, a partir daí, apreciá-lo com enorme felicidade. Sempre intuí que o Jazz, tanto quanto Rock, Blues e R&B, era herdeiro da tradição de insurgência contra as injustiças da sociedade ocidental, algo que passou, a princípio, por fazer música "burra", "impura" e "vulgar", bem distante da escola tradicional europeia, herdada pela América colonial. Era música de e para negros e brancos pobres, ambos excluídos do sistema, tentando sobreviver culturalmente num ambiente inóspito. Ele e seus primos em outros lugares, a saber, o Samba, a Salsa, o Calipso, entre outros.

Este texto não pretende ser uma aula de História, porém, entender o Jazz passa por ter em mente este passado de vivências e lutas. Também passa por admitir que, apesar do anseio por várias instâncias políticas e sociais no meio do discurso, o estilo sempre explorou o que cada instrumento e cada homem poderia fazer de melhor. Esticar limites, inventar escalas, subverter doutrinas e, acima de tudo, tornar individual cada sopro dado, cada tecla ou corda que fosse acionada. Como se estes instrumentistas fossem equivalentes a artistas do Renascimento. Bem, pelo menos até certo ponto.

Foi na década de 1960 que o Jazz se viu obrigado a mudar mais profundamente. Abriu mão de um purismo/hermetismo, relacionado diretamente com uma vanguarda artística e criativa, em favor de uma aproximação com o Rock, estilo que havia surgido então e assumido a ponta de lança da comunicação de intenções com os jovens. Como as novas e desconcertantes manifestações daquele fim de década, o Rock representava a novidade e a liberdade enquanto ele, o Jazz, portador desses valores desde sempre, começava a ser visto como algo impenetrável e estagnado, prestes a desaparecer. Veio então o que os especialistas chamaram de Fusion, o subgênero jazzístico que se aproximou do Rock, mais tarde do Funk, com vistas a permanecer relevante. Este momento é chave para entender o Jazz atual.

As décadas de 1970/80 e 90 foram um tempo em que o instrumentista virtuoso e capaz de romper paradigmas foi substituído por outros predicados, a saber, a habilidade de criar novas misturas com estilos já existentes e/ou uma espécie de selo de relevância artística/respeito artístico, em variantes inéditas. Veio o Jazz Funk e o Acid Jazz, mas foi a fusão de Hip Hop com Jazz que promoveu uma interessante volta do gênero ao seu público original: o jovem. O próprio Quincy Jones, trompetista, lenda viva e produtor de gente como Frank Sinatra e Michael Jackson, reconheceu a importância e a linha tênue que separava os dois gêneros musicais, passando a integrar as fileiras dos simpatizantes do Hip Hop já no meio da decada de 1980. Podemos dizer que, nos anos 1990, os grupos que misturaram o som das ruas ao Jazz foram os mais criativos: Digable Planets, A Tribe Called Quest, Guru e até gente mais arejada como De La Soul.

O Jazz não é prisioneiro de velhos. Pelo contrário. O tempo trouxe essa incômoda pecha para ele, a de ser relacionado com gente que só apreciava a habilidade do músico, no sentido de que "quem toca mais, sabe mais", o que sempre foi repudiado pelos próprios arquitetos do estilo. Tocar mais ou melhor era uma consequência da genialidade inata e não uma instância para medir a relevância de um artista. Os apreciadores do fim do século 20, aliás, são especialistas em confundir tais medidas, mas isso é assunto para outro texto. Sendo assim, o que é o Jazz hoje? Agora? Mais precisamente, o Jazz que passa bem longe dessa confusão mencionada acima. O Jazz como motor do novo, onde está?

Ele está mais próximo de uma Vanguarda Alternativa da música Pop. Ela é composta de produtores e artistas, além de produtores-artistas, que se misturam em gravações, discos, participações especiais, arranjos e demais ações de âmbito micromusical, como se fossem agentes discretos. É gente, sobretudo, com mente aberta e disposição para experimentações. Podemos citar Flying Lotus, Esperanza Spalding, BADBADNOTGOOD, Kaytranada, Thundercat, Ronald Bruner Jr (seu irmão) e talvez os mais associados ao estilo, Robert Glasper e Kamasi Washington. A trilha sonora do filme-biografia sobre Miles Davis foi produzida por Glasper, que chegou a lançar um disco simultâneo com duetos e interferências em obras do gênio. Já Kamasi é uma espécie de reencarnação do saxofonista Pharoah Sanders, que, por sua vez, era discípulo de ninguém menos que John Coltrane, o sujeito que "inventou" a espiritualidade no Jazz, quando abriu mão da vanguarda do estilo - com precisão, rapidez e técnica - para abraçar uma forma crua e elevadíssima de música, registrada em seu disco de 1965, A Love Supreme.



O Jazz está presente na música Pop atual. Claro, há os remanescentes das outras vertentes do estilo, reverberando as confusões entre virtuosismo e relevância, abastecendo os fãs abastados, que pagam preços altíssimos para ver apresentações e saem delas comentando o quanto A ou B "tocam pra c...". Claro, a individualidade é importante no Jazz, mas passa longe de sua totalidade de conteúdo. Tudo é importante e faria falta se estivesse ausente. Seria fácil oferecer, além dos artistas mencionados aqui, uma lista de álbuns clássicos do Jazz. Há vários por aí, todos datando do fim dos anos 1950/60, quando o estilo modernizou-se, mas abrindo mão de uma popularidade/facilidade vital para sua existência com viabilidade comercial.

Em vez disso, vamos recomendar trabalhos bem recentes, com inequívoco apelo jazzístico e cheios de pontos de partida para que você possa explorar e apreciar as virtudes do estilo.

A Tribe Called Quest - The Low End Theory (1991) e Midnight Marauders (1993) - Discos indicados para quem deseja entender como houve a aproximação entre Hip Hop e Jazz da forma mais tradicional, ou seja, com uso de sampling de grandes artistas do passado. Nesta instância, ATCQ é campeão.



Guru - Jazzmatazz vol.1 (1993) - Em vez de apenas samplear trechos de gravações famosas, o rapper Guru convocou um time de músicos e luminares do estilo, oferecendo algo verdadeiramente novo. O primeiro volume da série Jazzmatazz desenhou uma linha no chão e estabeleceu parâmetros.



Digable Planets - Reachin' (A New Refutaion Of Time And Space) (1993) e Blow Out Comb (1994) - Dois discos em um ano, mostrando uma corrente mais estratosférica do Hip Hop, flertando com temas urbanos e esotéricos.



The Roots - Things Fall Apart (1999) - É um disco ponta de lança da chamada "segunda onda do Hip Hop alternativo", com instrumentistas talentosíssimos e já conectados com a genialidade exibida pelo estilo na virada dos anos 1980/90.



Brad Mehldau - Live In Tokyo (2004) - É, não tem só Hip Hop por aqui. Brad Mehldau, talentosíssimo pianista norte-americano, carrega nas costas a herança de pioneiros como Thelonius Monk e Bill Evans, mas sem apelar para revisionismo. Pelo contrário, Brad tem criatividade de sobra para suas composições e para revisitar standards de Cole Porter ou dos irmãos Gershwin, mas tempera seus discos e shows com arranjos inusitados para composições de Nick Drake e Radiohead. Este álbum ao vivo é uma espécie de cartão de visitas de sua obra.



Robert Glasper Experiment - Black Radio (2012) - Este é o álbum que mostrou uma espécie de indissociabilidade entre Jazz e Hip Hop, praticamente inaugurando uma sonoridade nova. É um disco conceitual, cuja missão é resgatar o passado cultural da música negra estadunidense, especialmente a partir do Jazz clássico do pós-Segunda Guerra e ampliar seus contextos para a pós-modernidade. Glasper se dispõe a isso com um quarteto de instrumentistas e um monte de convidados. Não por acaso, é sua estreia no mais prestigioso selo de Jazz de todos os tempos: a Blue Note.



Kamasi Washington - The Epic (2015) - Um divisor de águas. A partir daqui, estamos contando uma nova história do Jazz e você está assistindo a tudo conosco.



Por Carlos Eduardo Lima do História Por Música
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Accept: "Balls To The Wall" - a mensagem

by on segunda-feira, outubro 22, 2018

Ao ouvir a música pela primeira vez, me perguntei freneticamente o que diabos o loirinho baixinho quis dizer com bolas na parede, então a curiosidade me forçou a ir atrás de algum significado. Em minhas andanças pela rede eu encontrei 2 possíveis significados.

1° Balls To The Wall (a gíria) – na série Metal Evolution, do cineasta e antropólogo Sam Dunn, a Tradução da frase aparece como “vai com tudo”, então podia funcionar como uma gíria da época. O termo é usado pelos pilotos. quando se acelera rapidamente, o acelerador é empurrado por todo o caminho até o painel e a alavanca do acelerador (bola) realmente toca o painel (parede). Daí, bolas para a parede.

2° Balls to the Wall (o protesto) – na década de 1980, a Alemanha passava por um fenômeno que se chamava “anos de chumbo” onde o Exército Vermelho (Baader-Meinhof) cometia vários atentados e perseguia a população, possivelmente o Accept se utilizou das mesmas armas dos brasileiros na época da ditadura... a ironia. Podiam se valer da gíria Ball To The Wall para protestar, já que nas revistas os soldados mandavam todos de frente para a parede e os homens ficavam literalmente com as ‘bolas’ na parede, e analisando a letra se vê claramente um incentivo a protestos, a não aceitação ao que se estava acontecendo.

Por Leonardo Henrique
Postando em Whiplash.Net

20 de out de 2018

Review: Twenty One Pilots - Trench (2018)

by on sábado, outubro 20, 2018

Acho que o Twenty One Pilots é o reflexo de uma modernização do consumo de música. Por isso, não vejo eles simplesmente como uma banda, mas como uma boa representação desse fenômeno. Hoje em dia, ouvimos música por plataformas digitais, compramos indiretamente e não nos restringimos mais a gêneros como antigamente. Os jovens atualmente consomem todo tipo de coisa, do reggae ao rap e até jazz. Tudo a um clique de distância, ou melhor, a uma playlist de distância. A sensação de ter um estilo que define quem você é também é menor hoje, já que ouvimos diversas coisas diferentes, mas não nos apegamos muito a nada.

Assim, o duo formado por Tyler Joseph e Josh Dun encontra o devido espaço, afinal, eles exploram uma sonoridade que trabalha linguagens diferentes, como indie rock, reggae, rap e eletropop. Trench é o quarto trabalho do duo, depois do bem sucedido Blurryface e da música que entrou para o filme Esquadrão Suicida.


Trench é um álbum conceitual, que segue explorando alguns temas comuns na música deles. O disco conta a história de um personagem chamado Clancy que tenta fugir de uma cidade chamada Dema. Essa cidade é governada por bispos que impõem uma religião opressora e impedem que as pessoas sejam livres. Uma interpretação válida para a história é que a cidade na verdade representa doenças mentais que aprisionam as pessoas, os bispos são as manifestações de doenças como a depressão e a religião representa a mentalidade oprimida e isolada de uma pessoa nessa condição. A honestidade com que trabalham isso vem do fato de que Tyler realmente sofre e já sofreu bastante com a depressão.

Liricamente, o disco assume uma tendência extremamente séria e responsável de ajudar a elucidar um tema que merece discussão. Mas musicalmente, as escolhas de Joseph e Dun, auxiliados pelo produtor Paul Meany, servem para liquidificar ao máximo o conteúdo das letras. Faixas como “Clohrine”, por exemplo, demonstram como o duo está preocupado com ganchos melódicos fáceis e com climas felizes, mas pouco preocupado em extrair substância e corpo de suas canções. Os arranjos são lânguidos e pecam na falta de energia e no excesso de confiança em melodias e no minimalismo. Em pouco tempo, estamos próximos do tédio, mesmo com toda a força do storytelling do disco ainda impactando nossas cabeças.


A linguagem musical do disco é mais pop acessível, envolve elementos de reggae e rap como é comum, mas sem nada que impressione. Enquanto em faixas como “Jumpsuit”, eles acertam no arranjo que surpreende e levanta a empolgação do ouvinte, em outras (na maioria), eles se entregam a um padrão de condução das faixas que repete clichês estruturais que não prendem a atenção do ouvinte, pois não é nada rigorosamente inédito. Nota-se que a banda está tentando ser mais coesa em sua musicalidade, mas, com isso, sacrifica um pouco a espontaneidade que caracterizava os momentos mais malucos dos outros discos.  
Ou seja, eles tentam passar a mensagem do disco investindo em drama e em melancolia, mas conseguiram como resultado um disco que carece de força. O Twenty One Pilots ainda merece mérito por representar esse novo fenômeno de bandas que se importa pouco com gêneros, mas precisa se afastar da vontade de soar palatável ou a criatividade de seus discos correrá risco de extinção.

Por Gabriel Sacramento (Escuta Essa Review)


Foto: Brad Heaton

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